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Ninguém é dono de um animal

cachorrocestaDefinir a submissão imposta aos animais não-humanos como também uma violência simbólica ajuda a compreender como a relação de dominação – que é uma relação histórica, cultural e lingüisticamente construída – é sempre afirmada como uma diferença de ordem natural, radical, irredutível, universal.

"A recriação da linguagem, faz parte do sonho possível em favor da mudança do mundo." Paulo Freire

"Dono" e "posse": palavras que não combinam com os animais.
Robson Fernando - Ciências Sociais UFPE

Dois vícios infelizmente ainda comuns entre defensores de animais e legisladores, sem falar da população como um todo, são considerar a tutela e responsabilidade de uma pessoa sobre seu bicho de estimação uma “posse” e chamar humanos que cuidam e tutelam animais domésticos de “donos”. Quem nunca falou ou ouviu expressões como “o dono desse cão...” ou “...em prol da posse responsável de animais”? É esse uso extremamente inadequado e vicioso, senão especista, dessas palavras que todos precisam repensar e abolir da relação entre os humanos e os animais não-humanos.

Segundo o Aurélio:
DONO: s.m. 1. Proprietário, senhor. 2. Chefe (de uma casa).
POSSE: s.f. 1. Detenção duma coisa com o fim de tirar dela qualquer utilidade econômica. 2. Investidura em cargo público, ou posto honorífico, etc., ou a respectiva solenidade.

Note que não há nessas atribuições originais as posições de guarda ou tutela, tutor ou responsável de animais. Isso dá razão aos argumentos que consideram posse de animais sendo sua relegação a bens, objetos de valor e de usufruto de seu proprietário, e dono sendo de fato um proprietário. E ambas as palavras convergem num sentido semântico: propriedade.
Pergunto então: é ético dizer-se proprietário de animais domésticos? É válido ter como propriedade, como meros bens de valor, seres dotados de sentimentos, personalidade, senciência, passibilidade ao sofrimento?

Você, possivelmente um defensor animal, dirá que fala “posse” no sentido de tutela, de criação paternal dos bichos, sem intencionar reduzi-los a propriedades. Mas então eu digo: você, que não tolera o especismo, iria se referir à guarda de uma criança órfã adotada como posse também? Você diria “Vamos garantir a posse responsável de crianças abandonadas”? Ou acha essa frase absurda?

Já sei: é a força do hábito, ou, em outras palavras, um vício de expressão habitual. Os protetores dos animais devem se policiar para evitar proferir essas palavras que não condizem com a dignidade dos animais. Lanço aqui um comentário subjetivo: sabe que, quando falam de “posse responsável”, só consigo remeter minha imaginação à posse de armas? Armas sim são objetos passíveis de uma posse responsável. O usufruto irresponsável da propriedade delas gera muitos acidentes graves ou fatais e facilita seu roubo para uso em crimes, portanto, é necessária sua posse responsável.

Sem falar que é impensável falar de posse de armas como sendo tutela, guarda ou criação paternal delas. Penso nessas horas: poxa, realmente soa muito mal falar de “posse” de animais, ainda que a palavra, acompanhada do adjetivo “responsável”, esteja se referindo a uma tutela bem-conduzida de bichos.

Voltando ao fluxo objetivo do artigo, vamos pensar em um assunto de certa forma pouco pensado: as crianças selvagens, abandonadas na selva e criadas por animais não-humanos. O site FeralChildren.com dá muitos exemplos sobre essas crianças e mostra que a maioria delas foi cuidada ao longo de sua infância (e juventude, em muitos casos) por lobos e primatas. Analisando as histórias, vemos que esses animais são mais éticos - mesmo que não tenham nenhuma noção de Ética – que o humano no tratamento da espécie “antagônica”. Ao menos no que se refere à não-arrogância do atributo de dono ou posseiro do ente adotado.

Nota-se que os lobos que adotaram meninos(as) como Kamala, Amala ou Djuma de forma alguma os(as) tratavam como se fossem donos seus ou como se estivessem em posse deles(as). Pergunto: você chamaria os cuidados quase paternais dados pelos bichos da selva às crianças de “posse responsável”? Note que a relação interespecífica lobos-meninos selvagens é quase a mesma que a relação humanos-bichos domésticos, com o diferencial de que o apego dos animais aos humaninhos adotados era muito mais próximo de um afeto paternal/maternal/familiar do que o daqueles que se dizem “donos” dos seus bichinhos a estes.

Epa, mas essa diferença não acontece sempre! Existem muitos casos em que os humanos se apegam numa relação também quase familiar com seus “meninos não-humanos”. Pergunto então, já para mostrar a invalidade da condição do uso dos dois termos: onde há um relacionamento de “posse responsável”? Nos cuidados “animais selvagens => crianças adotadas”? Na relação “humanos civilizados não-especistas => animais domésticos”? Nos dois? Ou em nenhum? A sua conclusão mostrará que não há lógica ético-filosófica na arrogância da posse ou do atributo de dono em nenhum sentido direcional da relação entre espécies de diferente condicionamento racional/proto-racional.

Isso, no entanto, não é respeitado por muitas pessoas, ora ignorantes ora realmente mal-encaradas na sua visão acerca dos animais não-humanos. Enquanto amantes verdadeiros destes últimos falam de “dono” ou “posse” apenas no costume/vício de expressão, gente como pecuaristas, vaqueiros, peões e comerciantes de pet-shops tratam, de fato, os bichos sob seus cuidados aplicando o sentido mais denotativo possível dessas duas palavras.

Levando ao pé da letra a arrogância de serem “donos” e terem “posse” de cães, gatos e pássaros engaiolados à venda ou cavalos, bois, porcos e outros animais explorados no meio rural, usam-nos para fins perniciosos, desde o acúmulo de propriedade e extração de matéria-prima (vide execução em massa nos matadouros para obtenção de produtos como carne e couro) até seu aproveitamento comercial e “cultural” pela sua coisificação e redução a brinquedos e mercadorias, como em rodeios, vaquejadas, exposições e leilões(!) de animais e pet-shops, violando gravemente a dignidade existencial dos não-humanos e repetindo os mesmos procedimentos abomináveis que foram muito praticados na época da escravidão humana, até o século 19.

Isso não é de fato uma conseqüência do uso zôo-específico das duas palavras, mas uma amostra do que se é capaz de fazer quando se tenta transplantar a aplicação delas, que deveria ser restrita a objetos e bens imóveis, à relação com os animais. Visto isso, a intolerância à sua aplicação nos bichos implicará a inadmissão dos meios de exploração animal. Isso não seria uma zôo-panacéia, mas um passo na evolução ética do tratamento de nossos irmãos de vida.

Todos os fatores e evidências expostos mostram que é realmente inadequado chamar tutores de bichos de “donos” e sua tutela/guarda/criação paternal de “posse”. Caso seja um vício de expressão habitual, recomendo que você policie sua fala para que evite proferir essas palavras no tratamento de animais. Pequenas mudanças na aplicação do vocabulário conseguem moldar detalhes importantes da própria visão da pessoa sobre o assunto da dignidade animal e tornam sua atitude mais racionalizada e coerente.

É com passos simples como essa substituição vocabular que, aos poucos, os próprios defensores dos bichos vão se livrando de antigos vícios e resquícios de especismo e de tratamento desigual entre o humano e o bicho e otimizando sua própria visão do valor natural e espiritual que os animais não-humanos, assim como os humanos, possuem plenamente. Jamais vai se alcançar um mundo de animais libertos e plenamente respeitados quando ainda há apologias, intencionais ou não, ao antigo status arrogado de “donos” e à posse/propriedade de bichos.

Fonte:
http://conscienciaefervescente.blogspot.com/

Debates de termos em outros movimentos sociais
O poder da palavra na construção e permanência cultural da dominância e opressão

Movimento Gay: "Segundo Silva (2001, p. 20), foi por meio dos movimentos de liberação homossexual, sobretudo após o incidente de Stonewall em Nova York em 28 de junho de 1969, que surgiu o termo gay como forma de apagar o teor psiquiátrico do termo homossexual, instaurando a luta política."

Movimento Feminista: "Linguagem inclusiva: Dentro do feminismo existem inúmeras vertentes, cada qual lida com diferentes aspectos da opressão das mulheres e da opressão de gênero. Uma dessas vertentes, o estruturalismo, trabalha em cima da linguagem para apontar uma forma específica de injustiça de gênero, legitimada pela gramática. As/os feministas estruturalistas afirmam que, apesar das regras gramaticais, o universal não é masculino. Ao considerá-lo masculino, cria-se uma hierarquia de gênero, onde o feminino é mais uma vez o prejudicado, diminuído, inferiorizado. A linguagem tem um papel importante como construtora de identidade, e tem influência direta no imaginário das pessoas. Daí vem a preocupação de não se excluir um grupo que representa metade da população mundial de nossos discursos, simplesmente porque nos disseram que é assim que deve ser. Muitas/os feministas, entendendo que existem relações de poder dentro dos discursos, se utilizam da linguagem inclusiva (citar os dois gêneros quando estes se fazem presentes) para tentar desconstruir a inferiorização do feminino, sem limitar sua luta à essa questão."
Movimento Político-pedagógico: Em, "Professora Sim Tia Não", não é intenção do autor desvalorizar a tia, mas valorizar a professora, não lhe retirando aquilo que lhe é fundamental: sua responsabilidade profissional, que faz parte da exigência política de sua formação, esta em estado permanente. Concordamos com o autor quando faz essa reflexão, pois o termo “tias” carrega uma ideologia de “boas moças”, que não brigam, não resistem, não se rebelam, não fazem greve.

Movimento Negro: Termos racistas.

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